Estava de férias. Havia me formado no ensino médio havia poucas semanas e não tinha absolutamente nada com o que me preocupar, somente esperar a carta de aprovação das faculdades que eu me inscrevi, o que as vezes tirava meu sono, mas dessa vez isso não havia sido o motivo de eu ter acordado tão cedo e tão irritada essa manhã. Meu despertador tocou as 8am e eu não fazia ideia de quem tinha desajustado o horário, e colocado para ligar na rádio essa hora.
Era inverno em NYC, então a casa estava num clima agradável mas eu realmente queria ficar no meu quarto escuro debaixo das cobertas, mas como eu não aguentava mais as músicas bregas me despertando de 5 em 5 minutos, resolvi finalmente sair de lá. Também não vinha cheiro de comida do andar debaixo. Minha mãe recentemente tinha despedido a cozinheira por coisas da cabeça dela. Definitivamente o emprego, apesar de ser o dos meus sonhos, a fazia ficar paranoica com as pessoas. E isso não era bom para o meu estômago e nem para o meu pai, que tinha mania de organização. Meus pais eram agentes federais, passavam a maior parte do tempo fora e adquiriam mania estranhas. Sonhava de verdade em trabalhar com isso desde pequena, mas era uma estrada meio longa a ser percorrida e eu não estava nem no começo do caminho.
A cozinha estava impecavelmente arrumada e com a louça brilhando, panquecas estavam em cima da mesa, cobertas. No fogão estavam duas panelas com ovos e bacon nelas. Um bilhete estava na geladeira e provavelmente era da minha mãe, pelo papel cor de rosa.
“Querida, espero que não tenha se irritado quanto a hora que eu ajustei seu despertador hoje de manhã. Deixei comida em cima da mesa e nas panelas. O almoço está na geladeira e os sucos também. Por favor, mantenha a cozinha limpa. O Sr.Jefferson está querendo falar com você. Acho que é a chance de conseguir alguma coisa pra você por lá! Esteja no escritório as 5pm.
Com amor, mamãe.
Xx”
Rá! Sr. Jefferson! Ele é o chefe dos meus pais. Um velho abusado que estava na hora de se aposentar ou iria virar uma caveira como as que ele e o pessoal da perícia investigavam. Ia fazer dois anos que eu vinha pedindo um estágio ou um emprego nem que fosse de faxineira dos materiais químicos ou varresse os vestígios de bala do chão da sala de treinamento de atiradores. Agora ele finalmente deveria ter percebido que precisava de alguém com tradição e experiência, que eu não tinha, mas meus pais tinham! Apesar de ainda ter que fazer faculdade e depois ralar muito pra entrar no ramo, eu insistia em dizer que eu teria capacidade suficiente de fazer um excelente trabalho logo depois da faculdade de Direito.
As panquecas estavam frias e eu não tive a paciência de esquenta-las. Juntei tudo que estava na panela com as panquecas, peguei um copo de leite na geladeira e sai em direção a sala, arrastando minhas meias felpudas pelo carpete. Uma coisa laranja e oleosa se espalhou pelos meus ombros quando me joguei no sofá e eu percebi que era meu cabelo, ou o que costumava ser ele. Desde que sai da escola, eu virara uma preguiçosa de primeira, dormindo até tarde, trocando o dia pela noite, e passando a maior parte do tempo de pijamas e meias. Meu cabelo, que um dia tinha sido macio e limpo, estava bem oleoso e nada legal.
Eu não estava saindo muito de casa, minhas amigas estavam todas na Flórida e eu me perguntava o por que de eu estar aqui, em New York, assistindo desenho, em uma quarta-feira de dezembro.
X
A tarde demorou a chegar. Pra passar o tempo, eu fiz questão de parecer como gente de novo. E de arrumar meu guarda-roupa, fazer as unhas e antes disso, limpar a cozinha limpa e organizar a geladeira. Me vesti e procurei as chaves do meu Fiat 500 branco, tão bem guardado na garagem. O escritório não ficava muito longe de casa, ainda bem. Coloquei uma ótima música pra tocar e segui as ruas em direção ao prédio. Não havia muito trânsito por causa do horário e nossa, como eu agradeci por isso. Digamos que eu não era a melhor motorista do mundo, mas eu ainda conseguia andar por aí sem bater em nada.
No prédio, estacionei meu carro na vaga dos meus pais e segui para a recepção.
Boa noite. Em que posso ajuda.... Você de novo, Simons? - Carl, o recepcionista/secretário, parara de me receber tão bem depois de ir algumas dezenas de vezes no prédio e ele insistir que eu não tinha permissão para estar lá. Acabávamos sempre discutindo.
- Boa noite pra você também, Carl. É muito bom te ver de novo. - sorri, apoiando meus cotovelos e colocando minha cabeça nas mãos.
- Seus pais sabem que você está aqui?
- Claro que sabem, assim como quase todas as vezes. Eles me mandaram dessa vez.
- Não vou cair nessa de novo, Ruby.
- Qual é, Carl! Pode fazer o favor de ligar pra minha mãe!
- Olha, querida, Charlotte não estaria louca de mandar você pra cá.
- Louca, louquinha. Liga pra ela, sim? - fiz carinha de cachorrinho pidão. - Por favor!
- Ai, garota! - riu. - Por que mesmo depois de discutir com você, eu não consigo te negar nada?
- Porque você é meu gay favorito, poderoso! - pegou o telefone e em pouco tempo voltou a falar.
- Charlotte, sua filha está aqui, de novo. Pode subir? Ah, ok. - desligou o telefone e se dirigiu a mim. - Pode subir, coisinha insuportável.
- Rá, eu falei! Chupa essa! - corri para o elevador e ainda fiz questão de soltar um beijo pra Carl antes de entrar. O andar em que minha mãe estava era um dos últimos, no mesmo que o Sr. Jefferson, maravilha.
- Pensei que você ia se atrasar de novo, Ruby. - meu pai me esperava na porta do elevador. Dei um abraço nele e me senti minuscula de novo. Mesmo com salto alto, nada superava os quase 2 metros do meu pai, muito menos os meus 1,65 de altura.
- Não pai, eu não iria me atrasar, não com o bilhete da mamãe e aonde está ela?
- Escritório, esperando você. Acho que você vai gostar do que vai ouvir.
- Vou ganhar meu emprego!? Ai, maravilha!
- Bom, eu acho muito melhor do que isso. Mas deixa eu te pedir uma coisa, nada de irônias com o velhinho, certo?
- Nossa pai, eu nunca faria isso. Que difamação! - rimos juntos e entramos na sala onde minha mãe e o velho metido a defunto, nos esperavam.
- Ora, ora, quem nós temos aqui! Ruby Simons... Quem diria que nós iriamos mesmo precisar de você tão cedo.
- Eu nunca erro, Sr. Jefferson. É uma prazer ver o senhor novamente.
- Sente-se por favor. - me sentei na sua frente, entre meus pais. Na sua mesa haviam três pastas amarronzadas carimbadas com tinta vermelha. Não consegui ler o que era, mas sabia que eram pastas onde continham informações de vítimas. Meu pai já havia levado uma dessas pra casa. O estranho é o porque dessas pastas estarem ali. - Então... Acho que já sabe o que está fazendo aqui, não?
- Pude deduzir que consegui um emprego no escritório ou coisa parecida, certo?
- Não deixa de estar, mas há algo mais... Sim... Algo maior.
- Desculpe, mas, como assim, algo maior?
- Nós vamos lhe dar participação em um dos casos, querida. - disse minha mãe, havia orgulho em sua voz.
- Um caso? Pensei que eu não pudesse participar. Isso é... ótimo!
- Bem, você não pode, mas precisamos fazer isso. Nessas pastas há informações de três vítimas, tudo sobre elas. Elas foram brutalmente assassinadas em uma cidade no sul da Inglaterra. Você vai encontrar o que precisa aí. Mas agora, o que você precisa saber o porque de estarmos lhe envolvendo isso. Duas dessas garotas estudavam em uma escola de Ensino Médio e mesmo sendo os melhores profissionais investigativos dos EUA, teríamos dificuldade em entrar dentro da escola e descobrir mais coisas sobre o assassino. Nós não temos pistas ainda. Achamos que ele pode ser um assassino em série, que tenha contato direto com as três. Estamos enfrentando resistência do governo britânico também, porque a presença de agentes mais velhos, mesmo disfarçados, levantaria suspeita em um condado com tradição. Você entende o que eu quero dizer?
- Então vocês querem que eu vá pra essa cidade, no sul da Inglaterra, pra investigar 3 mortes , sem suspeitos, em uma escola de Ensino Médio? Vocês querem que eu volte para o Ensino Médio? - repeti.
- Exatamente! Muito bem, srta. Simons!
- Vocês enlouqueceram?
- Entenderemos se você recusar, aparentemente é um perigo muito grande para uma garota com 16 anos...
- Eu tenho 18, Sr. Jefferson.
- Com 16 anos eu também tinha medo do desconhecido e é claro que a menção de não termos nenhum suspeito influenciou muito em sua escolha...
- Eu tenho 18! E eu não estou com medo do perigo.
- Então isso quer dizer que você não está dando pra trás? Porque você sabe quantas pessoas queriam estar no seu lugar, não é mesmo? Quantas pessoas nesse escritório gostariam de pegar essa missão?
- Não, mas não precisa pensar em outras pessoas. Eu fico com isso.
- Isso que eu gosto de ouvir. George, você está criando uma excelente agente. - disse para o meu pai. - Sr. Jefferson se levantou, foi até um armário de canto de parede e tirou de lá mais algumas pastas e papeis. - Vamos ver... Você tem de Janeiro até Junho para descobrir o assassino. Geralmente não trabalhamos com prazo, mas estamos lidando com um cara que já matou 3 e cremos que para chegar á sua quarta vítima não será tão difícil. Faça o que tiver que fazer, Ruby. Entre nos clubes, seja popular, saia, arrume um emprego no bar da próximo a faculdade, onde a primeira vítima trabalhava. Fale com as pessoas, descubra coisas, esse é o seu trabalho. Não conte nada pra ninguém, não seja descoberta pelas pessoas certas, nem pelas erradas. “Os meios justificam os fins.”. Faça por merecer a informação. Não quero saber o que vai fazer nesses 6 meses, mas quero resultados e um culpado no final disso. Se conseguir, pode ter certeza que ficarei lisonjeado em escrever uma recomendação para o meu amigo, um dos caras que podem colocar você em Harvard em um piscar de olhos! Estamos entendidos?
- Estamos, mas eu posso fazer mais uma pergunta?
- Claro e qual é?
- Aonde eu vou morar, que cidade é essa e que série eu vou ter que fazer? Eles não vão saber pelo meu nome que eu já me formei?
- Você vai para Bexhill, East Sussex. Vai morar em uma casa perto da praia com o seu avô Peter. - disse meu pai.
- Eu vou morar com o meu avô Peter? Seu pai, pai? O ignorante, o bruto e o dono da loja de armas, Peter? Você só pode estar brincando, não é? Ele nem fala comigo!
- Ele já concordou em tudo e falando em loja de armas, você precisará ajuda-lo nos fins de semana e depois da aula, poderá estudar lá também.
- Que maravilha... E a série? Qual é?
- Só precisará refazer o seu último ano, você se saíra bem, tenho certeza. Não contará para o seu currículo, eles estão nos dando total cobertura para você entrar. - minha mãe completou.
- Garanto que vou... Então, acho que as informações já foram passadas, não é? Mais alguma coisa que eu deveria saber? - perguntei.
- Não, não. Só leve as pastas e leia. Absorva cada dado delas e esteja preparada para o que vá encontrar. Boa sorte. - ele se levantou e dessa vez nós fizemos o mesmo. Ele apertou calorosamente a minha mão e me entrou a pilha de pastas e papeis em seguida.
Já quando estava saindo pela porta, ele voltou a falar.
- Srta. Simons, só mais uma coisa. Tente não morrer.











